LA CASA DE LOS ESPÍRITUS: ESPAÇO DE VIOLÊNCIA E DE HARMONIA
Maria Mirtis Caser - UFES
Partindo das anotações de Bachelard em A poética do espaço, onde o pensador defende a idéia da casa como “espaço amado”, “os espaços defendidos contra as forças adversas” (19), buscaremos verificar com este trabalho como o espaço de La casa de los espíritus se constrói num misto de violência e de harmonia.
A violência, que acompanha a trajetória da humanidade, pode ser percebida nas histórias das idéias e da civilização dos homens que, no decorrer dos tempos, tentaram, com códigos de ética e de normas de conduta, criar limites para esse comportamento presente nas relações tanto pessoais quanto políticas. Jacques Leenhardt[1] observa a dificuldade que existe em se definir a violência – “noção incerta, infalivelmente ligada ao ponto de vista de quem fala”– mas anota que “a violência nasce onde não há acordo sobre regras e princípios, onde se apaga a idéia do corpo social, com tudo o que a metáfora orgânica implica na ordem do simbolismo da interdependência do direito e das liberdades, dos teres e dos haveres.”
Ainda que a violência se tenha apresentado de forma diversas nas diversa sociedades, alguns tipos de violência repetem-se em sociedades distintas e dela se podem ver exemplos na América Latina, palco da narrativa de Allende, que denuncia a violência que atinge a todos, mas da qual as principais vítimas são os mais frágeis, quer do ponto de vista econômico, sexual ou religioso. Em uma “charla” com os estudantes da Universidade Internacional Menendez Pelayo- Santander- em que falava de sua obra La fiesta del Chivo, Vargas Llosa observou que a violência e os fatos que beiram o fantástico não são um privilégio da América Latina e que não somos diferentes dos demais povos: nem mais violentos nem mais estranhos. O que passa nestas terras é, segundo ele, o resultado de uma impunidade que dá aos que detêm esse poder uma noção de que tudo lhes é permitido, de que nada será cobrado aos criminosos, com o que se perdem os limites do possível e se envereda por emaranhados embotadores de todo senso. Uma política manipulada pelos interesses pessoais, uma segurança engendrada por homens despreparados e truculentos e uma economia que se sustenta tão precariamente que sofre abalos diante de qualquer oposição interna ou externa formam um conjunto de fatores imbatíveis para transformar a América latina no berço da realidade fantástica, contra a qual se insurge Vargas Llosa.
Essa realidade de situações tão imprecisas, tão difíceis de se entender ou de delimitar explica, segundo Ronaldo Lima, o caráter de subjetividade da literatura aqui feita. Para ser mais precisos, deixemos falar o crítico “O escritor latino-americano pertence a uma realidade demasiado predominante para ser capaz unicamente de refugiar-se em si mesmo. Não é apenas o seu mundo que deseja transformar. É a sua nação”
É sobre essa realidade que Isabel Allende escreve a sua “casa”, contrapondo à violência masculina representada pelos arranjos políticos ambiciosos, pelos ataques sexuais a mulheres indefesas e pela vocação belicosa, a busca feminina da harmonia, movimentada pelo amor aos filhos, o cuidado da casa, e a preocupação em tornar a vida do semelhante mais amena.
O discurso de La casa de los espíritus é construído sobre a memória das principais personagens que povoam a saga de Esteban Trueba e de sua família formada de muitos filhos legítimos e ilegítimos, de mulheres estranhas e corajosas, os quais ele tentava subjugar a sua vontade mas que, como as coisas da natureza, cresciam independentes da vontade do chefe autoritário. A recuperação dos fatos mais marcantes da vida daquela gente só pode ser feita por meio das lembranças povoadas pelos sonhos e pela imaginação de cada um dos Trueba e para isso Isabel Allende usa em Casa de los espíritus a técnica de explicar a escritura pela existência de um texto anterior que lhe serve de ponto partida: assim como Cervantes tem seu Cide Hamete Benengeli que lhe facilita o trabalho, Alba, a narradora, tem as anotações de avó Clara que “escribía en sus cuadernos, para ver las cosas en su dimensión real y para burlar a la mala memoria” (363) e tem também as cartas de sua mãe, e dos livros da administração, com os quais ela tenta decifrar as verdades que moveram tantas alegrias e tragédias vividas pelos seus familiares.
O resultado é uma realidade própria, corroborando a anotação de Bachelard para quem “toda grande imagem tem um fundo onírico insondável e é sobre esse fundo onírico que o passado pessoal coloca cores particulares. Assim é no final do curso da vida que veneramos realmente uma imagem, descobrindo suas raízes para além da história fixa na memória.”[2]
A casa “é uma das maiores (forças) de integração para os pensamentos, as lembranças e os sonhos do homem. Nessa integração, o principio da ligação é o devaneio. O passado, o presente e o futuro dão à casa dinamismos diferentes, dinamismos que não raro interferem, às vezes, excitando-se mutuamente”[3]. O papel por ela desempenhado na estrutura da trama é vital. É possível ler nas condições da casa a situação física e mental dos personagens.
Na chegada de Esteban Trueba a Las Tres Marías, antiga propriedade abandonada pelos Trueba, confunde-se a derrocada da casa com o estado de espírito de seu dono: as marcas do tempo na pintura inexistente, na falta de corte das plantas, no péssimo estado do telhado estão evidentes, enquanto Estéban “los primeros meses se hizo el propósito de bañarse y de cambiarse ropa diariamente a la hora de cenar, (...) para no perder la dignidad y el señorío”. ( LCE, 55) Com o passar do tempo, no entanto, deu-se conta de que era inútil tanto esforço, pois não havia ninguém que o apreciasse e então “dejó de afeitarse, se cortaba el pelo cuando le llegaba por los hombros, y siguió bañandose sólo porque tenía el hábito muy arraigado, pero se despreocupó de su ropa y sus modales. Fue convertiéndose en un bárbaro. (LCE 55)
A barbárie de Esteban se rende, no entanto, à delicada força de Clara, a noiva de mirada distraída cujas preocupações estavam mais voltadas para a mesa de três pés e as cartas de adivinhação que a colocavam em contato com os espíritos do que para as coisas materiais que tanto preocupavam o noivo. Quando se confirma o noivado, Esteban demonstra seu estusiasmo com a construção da casa, pois é com ela que, acredita, vai fazer eternos os Trueba:
“EstebanTrueba se puso al mando de una cuadrilla de albañiles, carpinteros y plomeros, para construir la casa más sólida, amplia y asoleada que se pudiera concebir, destinada a durar mil años y a albegar varias generaciones de una familia numerosa de Truebas legítimos.(...) Su casa debía ser el reflejo de él, de su familia y del prestigio que pensaba darle al apellido que su padre había manchado. (LCE 85)
Enquanto Trueba dedica-se a construir a casa material, Clara dedica-se a construir-lhe a alma, desempenhando o papel, que tradicionalmente é reservado às mulheres, como se pode ver no fragmento: “Alba sabía que su abuela era el alma de la gran casa de la esquina. Los demás lo supieron más tarde, cuando Clara murió y la casa perdió las flores, los amigos transeúntes y los espíritus juguetones y entró de lleno en la época del estropicio. (LCE, 240)
Todas as tentativas de Trueba no sentido de subjugar a alma da amada, que lhe escapava por entre os dedos, mesmo nos momentos de maior intimidade, resultaram infrutíferas e a violência rompe a barreira do cuidado, desbordando em agressão física: “ Por un instante su ira pareció desinflarse y se sintió burlado, pero inmediatamente una olada de sangre le subió a la cabeza. Perdió el control y descargó un puñetazo en la cara a su mujer, tirándola contra la pared.” (LCE, 173)
Fazendo contraponto à brutalidade de Esteban, Clara é a mulher suave e forte, que como Ursula Buendía, enfrenta os ataques de insanidade do marido e consegue manter o precário equilíbrio da casa e de seus ocupantes, cuidando da cunhada, dos filhos e de quem mais a rodeava, amenizando-lhes os problemas do cotidiano e aplacando-lhe as mágoas do coração.
As alegrias e os problemas individuais ou domésticos ficam embotados, porém, diante da violência política institucionalizada representada pela ditadura, cujos tentáculos alcança a todos: o próprio Trueba, senador da República, vê-se impotente diante da ferocidade dos ditadores e de nada vale seu prestígio social e político na hora de tentar salvar a neta Alba, presa por sua ligação com Pedro Tercero. O fragmento a seguir flagra o poderoso Esteban en un momento de fragilidade, pedindo ajuda a sua amiga Tránsito Soto, uma prostituta a cuja ajuda recorre como última tentativa para salvar a neta das mãos da ditadura:
... no han valido de nada más de veinte años en el Congreso y tener todas las relaciones que tengo, yo conozco a todo el mundo en este país, por lo menos a toda la gente importante, incluso al General Hurtado, que es mi amigo personal, pero en este caso no me ha servido para nada, ni siquiera el cardenal me há podido ayudar a ubicar a mi nieta, no es posible que ella desaparezca como por obra de magia, (...) yo al principio no quería oír hablar de muertos, de torturados, de desaparecidos, pero ahora no puedo seguir pensando que son embustes de los comunistas...” (LCE, 352)
Nos momentos de maior dor e desespero Alba, em busca de coragem e conforto, tentava apelar para a harmonia que representavam as relações familiares:
(Alba) tenía miedo. Recordó el entrenamiento de su tío Nicolás cuando la prevenía contra el peligro de tenerle miedo al miedo, y se concentró para dominar el temblor de su cuerpo y cerrar los oídos a los pavorosos ruidos que llegaban del exterior. (LCE,341)
É a escritura por fim que vai dar às mulheres da narrativa a possibilidade de alcançar a tão almejada harmonia: Mi abuela escribió durante cincuenta años en sus cuadernos de anotar la vida.
(...) Los tengo aquí, a mis pies, atados con cintas de colores, separados por acontecimientos y no por orden cronológico, tal como ella los dejó antes de irse. Clara los escribió para que me sirvieran ahora para rescatar las cosas del pasado y sobrevivir a próprio espanto.” ( LCE, 363)
Vemos assim que todo o sofrimento e rupturas pelos quais passam os personagens principais de La casa de los espíritus são revisados por Alba que, desfazendo os nós e reorganizando a tessitura de sua história através da história de sua família, pode, por fim, encontrar-se e prosseguir em busca da vida.
ALLENDE. Isabel. La casa de los espíritus. 2.ed. Buenos Aires; Sudamericana, 1985.
LINS, Ronaldo Lima. Violência e literatura. Rio de Janeiro: tempo brasileiro, 1990.
BACHELARD, Gaston. A poética do devaneio. Trad. Antonio P. Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
_____. A poética do espaço. Trad. de Antônio P. Danesi. São Paulo: Martins Fontes, 1996.